Um lugar de grandes introspecções.

Quarta-feira, Dezembro 22, 2010

Adeus Corsa! Obrigado por tudo!



Nasceste mesmo no fim de 1992. Um Opel Corsa A, preto, em versão Sport, que era mais moderno. E que felizes são as primeiras recordações que tenho de ti: Domingo sim, Domingo não, abria a porta de casa e lá estavas tu, com o meu tio ao volante, pronto para me levar às míticas tardes desportivas no Trigueiros de Aragão. Desde os meus 7 anos que vi o C.D. Alcains derrotar os Académicos de Viseu, os Torreenses e os Marialvas das divisões secundárias do nosso futebol. Uma vez por época ias um pouco mais longe, levavas-nos aos sempre quentinhos derbis com o Benfica de C. Branco, de onde trazer uma vitória era a maior das alegrias.

Quando fiz 18 anos comecei a tirar a carta ainda sem ter um carro em perspectiva, mas quis o destino que os nossos caminhos se cruzassem. O meu tio tomou nessa altura a decisão de trocar-te por um carro novo (como é possível)? Trocas e baldrocas, o que é certo é que em Janeiro de 2005, 3 meses depois de tirar a carta, vieste parar-me às mãos. Vinhas etiquetado como "tanque" e "carro de combate". Não eras novo, mas andavas e, quando se tem 18 anos, isso é o mais importante. No entanto, desconfiava do teu real valor e para tirar as teimas, decidi prestar-te a um desafio mal te recebi: durante uma semana, decidi visitar de carro as 25 freguesias do concelho de C. Branco. Ainda hoje se riem de cada vez que conto ter feito isto, mas eu orgulho-me de dizer: "Sim, eu já fui a Santo André das Tojeiras!".

Ainda me lembro da primeira vez que te levei a Lisboa, estava a chover torrencialmente e tu não eras propriamente o veículo mais confortável para conduzir. Talvez por isso, durante a faculdade foste apenas o meu transporte quando regressava a casa. Lá passavas tu semanas inteiras, ora no estacionamento da Rodoviária da Beira Interior, ora na estação de comboios de Castelo Branco, ora ainda a meio caminho, altruísticamente dando-me a escolha de decidir em que meio de transporte queria voltar. Foram tempos negros para ti: nunca tinhas tido tão pouco uso na vida, de 2 em 2 semanas lá davas umas voltinhas, mas de resto era uma tristeza para ti...

E de repente, começa a minha vida de trabalho e os transportes públicos já não são suficientemente rápidos para ir e vir a Alcains no mesmo fim-de-semana. Quem veio novamente em meu auxílio? Foste tu, sempre tu! De 2 em 2 ou de 3 em 3 semanas, viajámos juntos para cima e para baixo, para cima e para baixo, parece que já sabíamos de cor todas as curvas da A1 e da A23 até àquela saída para Alcains.

Nos últimos tempos começaste a dar-me alguns problemas, sinais da idade, como é normal. Recuso-me a deixar que os momentos destes últimos dias perdurem na minha recordação, pois não são a memória que quero conservar do meu "carro de combate" com o qual fiz tantas viagens, sozinho ou acompanhado, em trabalho ou em lazer, para Lisboa, Aveiro, Castelo Branco, Espanha, Setúbal...

Quis a triste ironia do destino que encontres o teu fim precisamente no dia do teu 18º aniversário, no dia em que chegas verdadeiramente à tua maturidade. É uma crueldade que tu, que tanto me ajudaste quando fiz dezoito anos, não possas viver os primeiros dias dessa bonita idade.

Sim, podes vir a ser abatido e esmagado hoje, mas viverás sempre inteiro no meu coração.

Obrigado Corsa, obrigado por tudo!

2 Comments:

Blogger Ouriça das Neves said...

oh pedrocas... abatê-lo? k cruel...

10:15

 
Blogger boto said...

Grande post Fixe. Cheio de sentimento, emoção e saudade. O tal Corsa pode bem ser abatido fisicamente, mas permanecerá bem vivo na tua memória.

14:28

 

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